quinta-feira, agosto 06, 2015

Anda tudo histérico com o desemprego

Não é exactamente com o desemprego é com a Taxa de Desemprego do 2° trimestre de 2015 do INE. Pelo que acabei de ler até o José Rodrigues dos Santos fez uma pergunta durante o Telejornal de hoje, sem ter dado a resposta ou explicado porquê. A ser verdade é um péssimo serviço público porque apenas aumenta a histeria sobre a suposta manipulação de dados.

Antes de mais queria dizer que a confirmação que a taxa de desemprego estimada pelo INE está a baixar é um incómodo para muita gente. Por acaso é apenas um indicador, mas como a austeridade do Governo e da troika é obra do Demo, as pessoas não conseguem entender como podem alguns indicadores económicos sugerirem melhoras.
E é quando chegamos a este tipo de ponto que eu noto aquilo que gosto de chamar de "desonestidade intelectual". As pessoas usam partes das notícias e misturam valores ou conceitos diferentes para terem razão.
Na verdade no meio deste processo todo constato que "toda a gente" aldraba. Aldraba o Governo, aldraba a oposição mas pior que isso aldraba o cidadão comum que ou cai na cantiga, ou lê só o que lhe interessa para aparentemente ter razão naquilo que defende ou acredita. E é essa uma das razões porque o debate político em Portugal não vai a lado nenhum.

Falemos do INE então. Como os valores não batem certo ou não são o esperado, vem a malta pôr em questão os resultados. Sendo um gajo das engenharias e mais científico do que lírico (apesar de ser muito lírico também) eu gosto de números. Os números não mentem. Mesmo quando as estatísticas pintam um cenário diferente, como base de comparação com outros períodos ou outros países são irrefutáveis.
Pego no famoso exemplo dos frangos: Eu como 2 frangos, a Carolina não come nenhum. A média diz que comemos 1 frango cada um. Mas na verdade ninguém pode negar que no total comeram-se 2 frangos. E como a estatística costuma apresentar os mesmos resultados por diferentes grupos, o mesmo "estudo" mostra que os homens comeram 100% dos frangos e as mulheres 0%. Se passado 1 ano eu comer 3 frangos e a Carolina 1, teremos novas estatísticas que mostram que em média cada um comeu 2 frangos, mas agora os homens comeram 75% dos frangos e as mulheres 25%. E quando se compara com o período anterior nota-se que o número de frangos aumentou para o dobro e a repartição foi melhor.
Os números não mentem, mas o que acontece é que existem diferentes interpretações dos mesmos. Neste caso dos frangos, nota-se que de um ano para outro a riqueza (os frangos) duplicou a divisão está melhor, mas também se nota que a diferença nominal mantêm-se em que eu comi mais 2 frangos que a Carolina. Uns verão sinais positivos outros acharão que está tudo na mesma, são essas as diferentes interpretações dos mesmos números.

Voltando ao INE e aos números do desemprego (e emprego), a taxa estimada por eles é o valor oficial que temos. É calculado seguindo metodologias definidas e aceites por entidade internacionais, como o Eurostat que tem métodos similares (mas não exactamente iguais). É o mesmo método que calculou a taxa em 2011. É a única forma que temos de comparar este indicador nos diferentes períodos e com restantes países europeus, pois é o reconhecido pelo Eurostat.
Se a malta vem falar em alterar métodos e critérios, não podemos mais comparar com outros, pois então seria comparar alhos com bugalhos.
Mais, quando aparecem artigos e publicações a falar em desemprego real isto acrescenta ruído às comparações. Esse tal desemprego real é estimado com outros critérios e cada entidade que o faz tem metodologias diferentes. Até pode ser muito mais "real" que a taxa do INE mas não podemos usar como método de comparação oficial. Tanto mais quando alguém contrapõe a taxa dos 11,9% do INE com uma taxa de 29% de desemprego real e quando se pergunta de onde vem esse valor apenas dizem "saiu hoje entre outros dados". Logo com falta de provas sobre esses valores eu consigo apenas pensar que o mesmo saiu do cu, assim como os tais "outros dados" (fezes e gazes).

Mas o interessante é que as mesmas estatísticas de emprego do INE mostram muito mais que a Taxa de Desemprego de 11,9% (que sendo trimestral e não mensal não é ajustada de sazonalidade, o que explica parte da diferença com os valores mensais anteriormente apresentados).
Mostram também que o número estimado de empregados também continua a crescer, assim como a população activa (que é apenas reavaliada a cada trimestre e não mensalmente, o que explica a restante diferença entre os valores mensais anteriormente apresentados).
Portanto quando vem gente explicar que o desemprego apenas desce porque as pessoas ficaram reformadas, emigraram ou deixaram de receber o subsídio de desemprego estão a ignorar o aumento do número de empregados, assim como o aumento da população activa que caso os reformados e emigrantes fosse mesmo muitos nunca poderia ter aumentado.
E o número de empregados por outro lado também mostra que o Governo tenta aldrabar pois focam-se na taxa de desemprego quando comparam com o mesmo período de 2011 (quando tomaram posse) mas convenientemente esquecem-se que o número de empregados ainda é menor. Têm sido criados empregos sim nos últimos meses, mas o número de empregados assim como a população activa ainda é na ordem dos 300 mil a menos que no mesmo período de 2011 (curioso também que estes números contrariam que o desemprego está melhor por causa de meio milhão de pessoas terem saído do país, pois isso teria que resultar numa diferença maior do que estes 300 mil).

Mas tem outra parte que eu queria explicar, pois eu acho que muita gente não sabe disso e o mais grave desta discussão é que muita gente continua a vir com argumentos como por exemplo as pessoas a receber subsídio de emprego ou que deixaram de estar registadas no Centro de Emprego como se isso contasse para alguma coisa.
Se leram com atenção eu sublinhei sempre a palavra estimada(o) a falar das Estatísticas do Emprego do INE. É que estas estatísticas são feitas através do Inquérito ao Emprego, que nada mais é que uma sondagem feita a uma amostra de população, com base nos resultados do Censos 2011. Na ordem dos 22500 agregados familiares (pelo menos era este a amostra em 2006 mas isto sofre ajustes constantes) são entrevistados. E é por isso que os números nada têm a ver com outras dados estatísticos e por isso é que têm de ser corrigidos, e sobretudo por isso é que o INE usa sempre o adjectivo estimado na apresentação dos resultados.
Se quiserem saber mais é só ler a nota técnica no fim do PDF com os resultados.
Todos estes números, desde 1974 quando foi criado este Inquérito, não são mais do que estimativas, mas são os números oficiais e aqueles que temos de ver e comparar, sempre foi assim, não mudou agora porque o PSD e CDS querem que mostre outra realidade.

PS - Por falar em aldrabar, encontrei outro texto partilhado na net em que afirmavam mesmo que o INE aldraba a taxa de desemprego e outros indicadores, pois se há mais pessoas empregadas e o PIB tem crescido, como é que a receita fiscal tinha diminuído em 660 milhões de euros? É mais um exemplo de desonestidade intelectual. Pegaram no título duma notícia que fala em desvio de 660 milhões nas estimativas de crescimento da receita fiscal. A mesma notícia dizia claramente que a receita fiscal cresceu 3,5% mas o Governo estimou no OE 2015 um crescimento de 4,3% logo se a taxa de crescimento se mantiver até final do ano, teremos uma diferença de 0,8% que resultará nos tais 660 milhões de euros. Mas isso não quer dizer que a receita fiscal diminuiu. Ela aumentou 3,5% o que confirma os outros indicadores económicos e que, apesar de muita gente não querer aceitar, tem havido recuperação económica.
Mas as pessoas preferem discutir teorias da conspiração na vez de aceitarem a situação actual e discutir os verdadeiros problemas, que são muitos.
É mais uma razão pela qual eu digo que o debate político não vai a lado nenhum...

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