segunda-feira, julho 18, 2016

Golpe de Estado ou de Teatro?


Se calhar um dia saberemos ao certo o que realmente se passou entre os dias 15 e 16 de Julho deste ano. Talvez tenha sido uma verdadeira tentativa de golpe de estado, levada a cabo por alguns militares um pouco ao estilo do nosso 25 de Abril (nem toda a gente estava por dentro) mas que correu mal porque o povo saiu às ruas mas para defender o Governo, ou então terá sido um verdadeiro golpe de teatro, uma encenação para na verdade promover (mais uma) limpeza a vários níveis. Uma limpeza de vozes contestatórias a Erdogan, o presidente que parece ser eterno, e que também parece ser um ditador de facto apesar de ainda não ser um em pleno.

A cena na ponte do Bósforo que se irá certamente tornar uma imagem da história parece indicar que é mesmo um golpe de teatro. Militares fortemente armados, incluindo 2 tanques pesados, largam as armas e rendem-se a forças de segurança civil que por mais corajosos que são dificilmente teriam hipóteses contra o dispositivo ali instalado em caso de conflito.
Por um lado é bom e positivo que os militares ao verem que os civis não estão do seu lado desistem e rendem-se pacificamente de forma a evitar mais baixas. Também o poderão ter feito ao perder contacto com o Posto de Comando dos golpistas e sem ordens para agir entregaram-se ao poder civil. Existe ainda uma outra hipótese, os soldados ao saberem o que se estava a passar e que se calhar tinham sido enganados, rendem-se às outras forças.
Mas vários destes cenários não invalidam o golpe de teatro.

Sabemos que nos confrontos terão morrido perto de 300 pessoas. Mais umas centenas de vidas perdidas sem grande razão aparentemente. Mas isto é só o começo. A vingança de Erdogan já se faz sentir e são os muitos milhares que já foram presos, entre militares, juízes e polícias. Última notícia que li fala já em mais de 8000. Como Erdogan os chamou de traidores, uma execução de vários destes presos não está afastada, apesar da pena capital ter sido abolida legalmente há 12 anos.

Não sou um especialista na política interna e questões sociais da Turquia. Do pouco que li até agora as forças armadas têm-se como seculares mas nos últimos tempos o Governo tem-se tornado mais islamista. É sempre errado quando as forças armadas querem derrubar um Governo democraticamente eleito mas existe mesmo democracia na Turquia?
Esta manhã ouvi um comentador inglês falar que é grave que a NATO não tivesse alguma suspeita que isto estava a acontecer. A Turquia é um país da NATO e o golpe sendo conduzido por militares costuma ter alguma partilha de informação. Nomeadamente os dirigentes do golpe costumam tentar saber junto dos aliados se haverá interferência, oposição, apoio ou neutralidade em caso de golpe.
O Movimento dos Capitães do 25 de Abril falaram com a NATO antes, através dos oficiais de alta patente que estavam a par do golpe. Alias havia um grande dispositivo da NATO perto de Lisboa no 25 de Abril mas a NATO oficiosamente apoiou o golpe e nada fez.
Se calhar ainda vamos saber que a NATO também sabia de algo mas como o golpe falhou vai ficar caladinha até daqui a muitos anos (quando alguns relatórios forem desclassificados).
Ou então é apenas mais uma evidência de teatro. A NATO não foi informada porque não havia golpe algum...

Estou a escrever isto e por ventura já apareceram mais alguns dados sobre o golpe. Esta manhã vi uma lista que a Al-Jazeera obteve com os nomes de quem ficaria a tomar conta do país uma vez o governo e o Erdogan depostos. Mas como tudo até agora, será esta lista verdadeira ou apenas mais uma prova fabricada para incriminar alguns contestatários do Erdogan?
Aguardemos os próximos desenvolvimentos...

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