segunda-feira, abril 01, 2019

A queda da eléctrica (bicicleta)


Se eu vos disser que a razão principal de eu ter saído da HCL agora no final de Março foi um gajo ter caído numa rotunda na sua E-Bike, ou seja na sua bicicleta eléctrica, ficam admirados e curiosos? Ou ficam a pensar que isto é uma mentira do 1° de Abril? Não é, é mesmo verdade.
Querem que vos conte a estória? Claro que querem e claro que vou contar. Mas como todas as outras estórias, tenho de começar pelo início...

Em Outubro de 2016 este vosso narrador estava bastante confiante. Depois de quase 6 anos de contínuo declínio na IBM, para o projecto/produtos no qual eu trabalhava, íamos agora ser transferidos para uma empresa indiana. À primeira vista era passar de cavalo para burro mas a parceria feita entre a IBM e a HCL era por muitos anos e a HCL como que estava obrigada a investir para manter essa mesma parceria mas também para aumentar a sua margem de lucro com os ditos produtos. E era nisso que eu apostava: na IBM o caminho era sempre a descer, e no meu caso particular não havia portas abertas para seguir outro rumo, mas agora parecia estar a abrir-se uma nova janela de oportunidades.

Admito que fui ingénuo; não dei o "peso" correcto ao facto de que toda a gente destes projectos/produtos foram para a nova empresa. Toda a gente implicava também muita chefia. O que mudou foi que os níveis acima dessa chefia deixaram de ser IBM (europeus e norte-americanos) para passarem a ser HCL (na grande maioria indianos). Ou seja na prática a nível de estratégia e decisões pouco mudou (e o que mudou foi para pior).
Então o que aconteceu foi que primeiro a possibilidade de passar de contractor (prestador de serviços) para permanente ao fim do 1° ano esfumou-se e depois continuámos a ter declínio no nosso projecto/produto, porque tal como na IBM o mesmo era canibalizado para transferir recursos para novos projectos/produtos que foram vindo da IBM mas, ao contrário do nosso, não vinham com o staff completo.

Mas nem tudo era mau sinal. Comecei a dar suporte a mais produtos, e deram-me novas responsabilidades. Até ganhei um prémio como partilhei aqui no blog!
Os ventos da mudança pareciam chegar como anúncios de crescimento e novos colegas para se juntar. Mais ou menos pela altura do prémio também vi aprovado um aumento do meu rate, por isso tudo parecia bem.
Mas em Junho numa reunião geral anunciaram que iriam criar 2 novos centros de suporte, um na Índia e outro nas Filipinas, porque lá conseguiam contratar gente para cobrir todos os fusos horários e que falam várias línguas (e por uma pechincha!). Isto não era bom sinal...

Desde essa altura pensei que assim que treinássemos os novos colegas e eles estivessem a fazer quase o mesmo que nós, ou seja, que o extra que nós fazíamos aqui era pouco para justificar o preço mais elevado, que eu e os outros contractors estávamos fora. Pensei que isso iria acontecer em 2019, nunca antes do meio do ano. Mas estava, mais uma vez, enganado...
Em Setembro um outro contractor, que tinha sido transferido para um novo produto pois não tinham ninguém quando o mesmo veio para a HCL, foi dispensado porque "não estava a correr bem" (este caso foi uma filha da putice, apesar do meu colega também ter cometido alguns erros da parte dele).
E quando em Novembro o meu manager começa a dizer que a renovação para 2019 está complicada (antes era sempre à última mas apenas por questões burocráticas) apercebi-me que afinal também estavam a pensar livrar-se de nós.
E assim foi, um dia tive uma chamada e basicamente disseram: não vamos renovar o contrato de prestação no final de Dezembro.

A decisão não tinha muita lógica. Os novos colegas ainda nem sequer tinham começado; dispensavam os únicos engenheiros que falavam outra língua; a equipa e a gestão andava a dizer há meses que éramos muito poucos e não conseguíamos fazer todas as tarefas que eram necessárias e agora a equipa ia ser reduzida em 1/3. Mas não havia nada a fazer. No final do ano estávamos fora.
Mas se ia então sair em Dezembro porque é que só saí agora em Março?
É aqui que entra, finalmente, a estória da queda de bicicleta.

No dia 13 de Dezembro, mais ou menos 17 dias depois de me terem "despedido" e a 1 semana de me ir embora (já tinha marcado férias de Natal por isso o 21 seria o meu último dia), um colega meu que tinha estado ele próprio de férias caiu de bicicleta numa rotunda. Ele aparentemente estava bem, não havia sangue, estava consciente mas levaram-no a um posto médico onde rapidamente se aperceberam que havia algo errado (o meu colega não se lembra de nada disso, a memória dele só começa quando chegou a ambulância, meia-hora depois da queda).
O meu colega teve uma queda pequena mas brutal, tendo estilhaçado a clavícula e fracturado várias costelas. Ia estar de baixa durante muito tempo. E nessa mesma noite, as chefias aperceberam-se que faltando um gajo mais os 2 contractors que mandaram embora, a equipa estava só a 50% e eles não podiam meter indianos, que ainda nem tinham contratado, a lidar com clientes importantes que usam o produto há muitos anos e têm ambientes e questões complexos(as).
De repente recebo uma chamada a pedir para ficar mais 3 meses. Eu e o meu outro colega da mesma equipa.
E assim ficou provada a estupidez da decisão de nos "despedir" tão cedo...

E assim ficou também contada a estória de como a queda duma bicicleta fez com que eu saísse em Março e não em Dezembro, e estes 3 meses sobretudo na altura em que foi, permitiram eu ir de férias de Natal descansado e preparar-me melhor para procurar novo emprego numa momento mais propício (o mês de Fevereiro costuma ser um mês que pouca gente aqui na Holanda quer trocar de emprego pois está há espera de ver como é o bónus do ano anterior).
Tenho de agradecer ao meu colega, ou à sua e-bike, por terem melhorado as minhas chances de sucesso no mercado de trabalho.

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